Estranhos Laços de Afeto

​Era Natal e minha prima, Tamara, queria muito uma boneca que tinha visto em uma daquelas vitrines. Seu pai sempre foi um cara que fazia todas as suas vontades e, por ser filha única, ela sempre ganhava todos os mimos e presentes. Tamara estava muito feliz com sua boneca nova; ela a tratava como se fosse uma pessoa de verdade.
​Certo dia, Tamara deitou-se para dormir e colocou a boneca em um berço de brinquedo. No meio da madrugada, acordou assustada após um pesadelo e notou algo na beira de sua cama que parecia vigiá-la. Ela podia sentir aquela presença, mas não conseguia ver o que era porque estava muito escuro. Em um piscar de olhos, a sensação passou. Foi então ver sua boneca e, para sua surpresa, ela não estava onde havia deixado. Ficou desesperada, pensando que alguém a tinha pegado, e chamou seus pais. Eles disseram para a filha ir dormir, pois no outro dia iriam procurar. Muito triste, a garota resolveu voltar a deitar.
​Ao amanhecer, a menina se assustou ao ver a boneca na beirada de sua cama, exatamente no mesmo local onde avistara a presença na madrugada. Muito feliz, pegou o brinquedo e foi tomar café.
​O dia passou e a noite chegou. A garota resolveu, então, colocar a boneca ao seu lado na cama para que ela não sumisse desta vez. Sem conseguir pegar no sono, notou que um estranho som vinha do brinquedo — algo que não seria fácil de escutar sem o silêncio da madrugada. Parecia uma respiração. Muito ingênua, ela achou aquilo normal e começou a conversar com a boneca, que a respondeu de forma estranha, dizendo:
​— Eu me chamo Brenda e tinha 15 anos quando me mataram e me trancaram nesta boneca.
​A voz continuou contando outras coisas que seriam difíceis de Tamara entender. A boneca relatou que também tinha sido, como ela, uma menina linda, uma pessoa de verdade, mas que agora não era nada e nada podia fazer. A garotinha ficou deslumbrada com a história, prometeu ajudar sua nova melhor amiga e pegou no sono.
​Os dias passaram e as coisas foram ficando cada vez mais estranhas. Tamara diariamente falava para os pais sobre as conversas com a boneca e sobre suas visões noturnas. Preocupados, eles procuraram um psicólogo para a menina, mas de nada adiantou: ela parecia estar em perfeito estado de sanidade.
​No dia 23 de janeiro de 1994, aniversário de 15 anos de Tamara, seus pais fizeram uma festa enorme. A garota estava muito feliz e não largava a boneca por nada. A noite foi passando e os pais começaram a dar falta de Tamara, que já não era vista na festa há algum tempo. Eles começaram a procurar pela garota; eu e meus outros primos ajudamos nas buscas, mas não encontramos nada. Os pais da menina resolveram, então, chamar a polícia, que imediatamente iniciou as buscas pela jovem que sumira misteriosamente com sua boneca, de dentro de sua própria residência, em pleno aniversário.
​Os policiais rodavam a vizinhança quando avistaram um clarão que parecia vir da mata. No local, ninguém ali presente conseguiu acreditar no que viu. Era algo realmente assustador: em cima de uma pedra, Tamara estava caída; embaixo dela, estava a boneca sentada. Havia um círculo desenhado no chão que parecia conter símbolos de possessão e rituais satânicos, tudo cercado por velas e pelo sangue de um bode, que estava esquartejado e sem cabeça logo ao lado.
​Os policiais correram imediatamente para socorrer Tamara, que parecia morta, e a levaram para o hospital. Quando os pais da menina chegaram ao local do ritual, ficaram horrorizados e se lembraram das estranhas conversas da filha sobre a boneca e das visões noturnas. Imediatamente, pegaram o brinquedo para fins investigativos e correram direto para o hospital local, onde Tamara estava internada, já sem pulsação.
​Ao chegarem com a boneca, algo realmente estranho aconteceu: a pulsação da pobre garotinha voltou de modo misterioso e ela acordou. No mesmo instante, a boneca que estava nas mãos da mãe começou a se desmanchar, como se algo tivesse ateado fogo nela, e foi lançada ao chão imediatamente. Assustados, todos correram para ver como estava a menina. Ao verem que tudo estava bem, os médicos logo a liberaram, após algumas horas em observação.
​Na volta para casa, de carro, o pai chamou por Tamara e olhou pelo espelho retrovisor. O que viu o deixou aterrorizado: havia algo assustador no corpo de Tamara. Ela agora vestia a mesma roupa que a boneca usava e parecia estar possuída. Foi então que eles escutaram uma voz estranha, que não era de sua filha, dizer:
​— Eu não me chamo Tamara, eu me chamo Brenda!
​Misteriosamente, o carro capotou. Todos morreram, exceto a menina, que saiu completamente ilesa de forma inexplicável. Hoje, ela está viva, internada em um sanatório infantil, e até os dias atuais diz se chamar Brenda.

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